Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

No comboio do amor

Começa sempre assim: primeiro, ela cautelosa a querer perceber onde um relacionamento com ele a pode levar, a tentar conhecê-lo, perceber se é um tipo decente em que valha a pena investir tempo e afecto, a cheirar a compatibilidade das suas hormonas com as dele. Ele, ao contrário, a atirar-se de cabeça, a bombardeá-la de telefonemas e mensagens, sempre presente, sempre em cima, de palavras bonitas e promessas que sabe que não pode cumprir, mas que o entusiasmo da conquista o faz, verdadeiramente, acreditar que sim. É ele a correr atrás dela.
Depois, ela começa a afeiçoar-se a ele, à sua voz a horas certas no telemóvel, ao seu riso e às suas graças, ao seu corpo e ao seu cheiro, à sua boca e ao seu hálito, assim, devagarinho, com calma, para que toda a informação captada pelos sentidos seja interpretada correctamente pelo cérebro de forma a que não haja enganos, de forma a que se criem laços, capazes de se tornarem fortes, duradouros. Nesta fase, estão os dois em sintonia, pois também ele a descobre com prazer, lhe desvenda a alma, lhe desnuda o corpo, lentamente, fazendo render o sabor desse sentimento inebriante que é a paixão. Nenhum tem defeitos aos olhos do outro. Um e outro são perfeitos. São virtudes os vícios; os tiques, particularidades engraçadas. O que vinte anos mais tarde juntos achariam exasperante tem agora piada. É giro. Nesta fase chamam-se de “querido” e “querida”, riem por tudo e por nada, parecem tontos − estão tontos! − de amor. Correm juntos um para o outro.
Depois, de repente, ele muda. Torna-se esquivo, menos presente. Ausente, até. Diminuem os seus telefonemas, escasseiam as suas mensagens. As dela, por seu lado, aumentam na proporção inversa das dele. Tudo assim, de repente, sem ela entender porquê. Ela bombardeia-o para o perceber, ele retrai-se − ainda mais − para não ter de dizer. As suas respostas soam a falso. As perguntas dela a maçadoras. É ela a agarrá-lo e ele a fugir.
É sempre assim. E se ela soubesse exactamente qual o momento em que esse volte-face se dá, saltaria da carruagem do comboio do amor no preciso momento antes de ele chegar. É que risco de se magoar, esse, seria consideravelmente menor.
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 04:46
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5 comentários:
De mjoaob a 25 de Janeiro de 2011
simplesmente...fantástico. ;)
De Viagem Sem Retorno a 31 de Janeiro de 2011
Adorei!!!

Aproveito para deixar o endereço do meu blog http://viagemsemretorno.blogspot.com espero que possa visitar. Obrigado
De Sofia Bragança Buchholz a 8 de Fevereiro de 2011
Obrigada :)
De Manuel a 11 de Fevereiro de 2011
Ele, como todos os homens, é um predador. Um predador de amor. É mais forte do que a razão, a paixão, a moral. É a sua natureza. É assim porque é assim.
Vive da excitação do desafio, da intensidade do prazer, da descoberta de todos os detalhes dela. Até ao dia em que, sem que o perceba porquê, o desafio, a novidade, o risco, desaparecem. O amor dela está adquirido. Está ganho. Já não tem associado o risco, a imprevisibilidade dos primeiros dias. É cansativo. Tudo se precipita e o fim anunciado da relação (que nunca mais chega...) é uma benção que ele recebe com alívio.
E a busca recomeça. Sem remorsos.
É assim. Porque é assim.
De jq a 17 de Abril de 2011
É assim. Porque é assim.... para eles!
Porque é que tem de ser assim... para elas!
E porque uns correm atrás do amor e outros fogem do amor, mas nessa viagem ambos se esquecem que a aventura do amor está presente, e bastará entendê-la como 'aventura' para que ambos caminhem no mesmo sentido.
Apenas os ritmos são diferentes, apenas os timings não são os mesmos, apenas um é homem e outro mulher...

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