Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2005

De Mãos Dadas com a Perfeição

"...
- Desces? — ouvi-o perguntar pelo intercomunicador do prédio.
- Dá-me só mais dez minutos, está bem? — pedi, carregando no botão para lhe abrir a porta da entrada.
- Mariana?
- Sim?
- Importas-te que espere cá em baixo? É que está um dia óptimo... parece Verão!
- Claro que não! — respondi. — Eu desço já.
Tinha-me telefonado há meia hora atrás, ainda eu dormia a sono solto, a antecipar para a manhã o encontro combinado para a tarde. E, apesar de estar ensonada e ressacada das sucessivas “caipirinhas” que bebera na véspera, aceitei prontamente ir tomar café com ele a Leça.
Sequei o cabelo rapidamente, engoli um copo de leite e corri para a porta, fechando-a atrás de mim.
Cá em baixo, ao sair para a rua, a claridade encandeou-me e fez-me colocar os óculos escuros enquanto o procurava. Depois de alguns minutos, descobri-o finalmente, e foi com um sorriso malicioso que me aproximei do descapotável onde estava sentado.
- Viva! Até que enfim que vejo um homem bonito dentro de uma “bomba” destas!
Ele voltou-se surpreendido na minha direcção e sorriu ao reconhecer-me.
- Geralmente são feios ou velhos! — acrescentei.
E, tirando os óculos escuros para o ver melhor, colocando-os na cabeça como se fossem uma bandolete, continuei:
- Gosto do teu carro, sabias?!
Ele abriu a porta e saiu do automóvel para me cumprimentar. Depois, ficámos os dois a olhá-lo, a admirá-lo como se fosse uma obra de arte.
- Um espectáculo, João! — disse mais uma vez, sem conseguir esconder o encantamento que este tipo de carros produzia sobre mim.
Ele, orgulhoso, sorria como um miúdo que mostra a um amigo um brinquedo novo. Mas eu não lhe ficava atrás. Fascinada, continuei à volta do carro, deslizando a minha mão lentamente sobre ele como se o acariciasse. Sentei-me no lugar do condutor. Senti os estofos macios de pele. Agarrei com firmeza o volante...
Ele baixou-se para ficar à minha altura e, vendo o meu entusiasmo, perguntou:
- Queres guiá-lo?
- Não sabes com quem te metes... — avisei, voltando a cabeça na sua direcção.
- Corro os meus riscos...
E, antes que mudasse de ideias, respondi:
- “Bora” lá!
Deixei-o entrar, ajustei o banco e os espelhos, pus o cinto, meti primeira e arranquei, sem sequer ter feito pisca.
- Não sabia que gostavas tanto de carros — comentou divertido.
- Isto não é um carro, João! Isto é...
Mas não acabei a frase porque me faltou o termo certo.
Ele riu-se. Mas por pouco tempo, porque na primeira recta viu-me acelerar até aos noventa.
- Cuidado com os cruzamentos, Mariana — aconselhou a medo.
Eu nem o ouvi. Entrei na Av. Marechal Gomes da Costa e carreguei no acelerador a fundo, só abrandando quando o ponteiro atingiu os cento e vinte.
Tive a sensação de que ele se encolheu no assento e, por várias vezes, pareceu-me que carregou instintivamente num travão imaginário.
- Não tenhas medo... — tranquilizei-o. — Nunca bati.
Ele respondeu numa voz que mal pude ouvir:
- Fico muito mais tranquilo...
Eu continuei.
- Foram sempre os outros que vieram contra mim... — E, desviando o olhar para ele, o que o fez ficar ainda mais aflito, acrescentei na brincadeira: — Mas por culpa minha!
Ele riu-se, novamente sem vontade, e respirou fundo.
Tinha subido a Av. da Boavista e voltado a descê-la. Meti outra vez pela Marechal e entrei nas ruas estreitas da Foz, sempre a uma velocidade considerável.
O João não disse nada, nem me perguntou aonde é que eu ia e, quando me viu parar em frente a casa, suspirou aliviado.
- Quase me matavas de ataque cardíaco, Mariana! — confessou, levando a mão ao peito, mas descontraindo-se finalmente no assento.
Eu agarrei-me ao seu pescoço e, ainda eufórica, enchi-o de beijos.
- És um homem de bom gosto! Não há nada que chegue às marcas alemãs! — exclamei, fazendo referência aos dois carros que lhe conhecia, e ao terceiro que suspeitava ser o da sua mulher, pois estava constantemente estacionado em frente da sua casa, mas que ele nem imaginava que eu já tinha visto.
Depois informei abrindo a porta do carro:
- Esqueci-me da carteira, vou buscá-la num instante.
E, ainda referindo-me ao que dissera anteriormente, acrescentei em alemão, como ouvira num anúncio: — Die deutsche Technologie!
Quando voltei a entrar no carro, ele estava sentado no lugar do condutor.
Eu desafiei-o com um ar trocista:
- E depois são os homens que têm fama de gostar de adrenalina...
Ele agarrou-me a cabeça com ambas as mãos, como se me fosse bater ou beijar, não sei, e, chegando a sua cara muito perto da minha, disse:
- És doida, Mariana. És completamente doida...
- Porquê? — quis saber, quase tocando os seus lábios.
- Porque passaste um semáforo vermelho e porque...
Não o deixei concluir. Pressionei o seu lábio superior entre os meus, devagarinho.
- Porque...? — murmurei.
Ele não respondeu e eu continuei...
- Gostas? — perguntei depois baixinho.
- Gosto — confirmou, respirando fundo, rendendo-se às minhas carícias.
E, olhando-me com um olhar de desejo, apenas a milímetros do meu, sugeriu:
- E se não fossemos tomar café a Leça?"

© Sofia Bragança Buchholz
In "De Mãos Dadas com a Perfeição", págs. 30-33; Editorial Presença 2003
 
 
publicado por Sofia Bragança Buchholz às 04:31
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2 comentários:
De exactamente a 3 de Junho de 2005
Estava ontem na sala de espera de um consultório médico e liguei a pda para dar uma volta nos meus blogs favoritos, não tinha mais nada para fazer. Passei na Rititi e vim de lá direito para este post, acho que é o primeiro da lista que está no profile.
Gostei.
Hoje vim cá confirmar.
Gostei ainda mais.
Parabéns.
De Eterna Descontente a 4 de Junho de 2005
Olá, Exactamente

Seja bem vindo ao E as Fadas… também se enganam no “Caminho”? (enganam, pois com certeza que se enganam, que esta vida tem muito pouco de "Contos de Fadas", e de "Contos de Fodas" é o que há mais por aí!) ;-)

Pois, o seu post é o segundo! O primeiro, consta de dia um, do seis, do ano da graça de dois mil e cinco e o responsável é um tal de kwan (isto não interessa nada, bolas, o que a gente diz nos posts da blogosfera!) :-)

É que resolvi – finalmente!!! – abrir os comentários ao “público”. De início não o fiz, porque achei que era indiferente à “continuidade” do blog o feed-back que recebia das outras pessoas. Mas depois achei que este dava uma certa dinâmica e que era engraçada a troca de ideias. Eu própria passei a ser mais activa nos comentários a outros bolgs. E então resolvi criar dois tipos de posts: aqueles que não se podem comentar, ou seja, o que quer que eu escreva está lá e pronto, ninguém tem nada com isso; e outros, que podem ser comentados. Claro que, com este método, se pode sempre dar resposta aos não comentáveis nos outros, mas enfim, o mundo não é perfeito”! ;-)

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