Sexta-feira, 3 de Junho de 2005

De Mãos Dadas com a Perfeição

"...
Eram sempre bons os nossos reencontros, embora aquele tenha tido um sabor especial.
Em primeiro lugar, porque foi nesse dia que urinei para um frasquinho transparente com tampa vermelha, que me ia finalmente confirmar se trazia dentro de mim um filho do homem por quem estava apaixonada. Em segundo lugar, porque íamos pela primeira vez trocar presentes e o meu era muito especial.
Alguns dias antes, no mesmo em que retirara as surpresas dos ovos de chocolate para o Miguel, reservara um ovo para o João. Mas, em vez de o voltar a encher com bombons e guloseimas, coloquei nele uma cópia das chaves do meu apartamento. Voltei a fechá-lo, a embrulhá-lo com o maior cuidado e a guardá-lo para lho entregar na segunda-feira como combinámos. Ele traria também uma prenda, que eu não fazia a mínima ideia o que seria.
Nesse dia almoçámos juntos em minha casa. Uma pausa de três horas que iria ser compensada com trabalho até muito tarde, como ele próprio dissera.
E, depois de termos matado as saudades e a fome, foi a vez de trocarmos os presentes.
Estávamos deitados em cima da cama, ele vestido com umas calças de um fato azul marinho e uma camisa ainda completamente desabotoada. Eu em roupa interior branca, de algodão macio, que me dava um ar ainda mais frágil e me fazia parecer uma adolescente.
Pousei o meu presente no seu colo. Ele, gozão, passou-lhe as mãos, abanou-o, fez um ar intrigado, negou com a cabeça como se não fizesse ideia do que se tratasse, depois voltou a abaná-la afirmativamente, como se finalmente descobrisse o enigma.
Eu ri-me das suas expressões. Era óbvio que era um ovo. A sua forma, a maneira como estava embrulhado, não deixava qualquer dúvida. Mas o seu sentido de humor divertia-me.
— Acho que é um ovo — arriscou finalmente, quando se decidiu a abri-lo.
Fê-lo muito devagar, o que provocou protestos da minha parte.
— Vá lá, João, depressa! Estou mortinha para ver a minha prenda!
— Vês? Adivinhei! — concluiu, quando deu com um ovo embrulhado num papel amarelo metalizado.
Fiz-lhe sinal para continuar a abri-lo.
— O quê... queres que continue?
Eu própria o ajudei a rasgar um bocado do papel.
As duas metades de chocolate separaram-se e as chaves da porta do meu prédio e as do meu apartamento ficaram visíveis. Ele olhou-me com um olhar malicioso.
— Vais encontrar-me muitas vezes na tua cama quando chegares a casa...
— Espero bem que sim.
— E vou-te assaltar o frigorífico, quando estiveres para Lisboa.
Eu ri-me.
Mas depois falou a sério. Falou com o olhar e com o beijo que me deu. E com as palavras, porque o João era bom com as palavras e nunca as dispensava.
— Obrigado, minha querida.
E depois foi a minha vez, que, ao contrário dele, destruí rapidamente o papel do embrulho e que à primeira tentativa me fez perceber de imediato do que se tratava. Perdi o entusiasmo e veio-me uma atrapalhação que não soube esconder. Preferia voltar a embrulhá-lo, mas os olhos dele cravados em mim obrigaram-me a continuar. As letras estavam lá, na caixa, e a forma longa e rectangular não me deixavam enganar. Restava-me a esperança que dentro estivesse uma coisa completamente diferente, como eu fizera com ele.
— Eu não posso aceitar isto — admiti, desolada.
— Porquê?
Mas era óbvio porquê. Dentro da caixa estava um relógio simples, rectangular, com mostrador branco e numeração romana. Dentro de um estojo sofisticado, estava uma jóia lindíssima em ouro, onde se podia ler Cartier.
— Porque é que não podes aceitar? — insistiu, levantando-me com a mão o queixo, que entretanto ficara pregado nas minhas mãos, que seguravam frouxamente o relógio.
— Porque isto foi caríssimo.
— Não foi nada — garantiu, para me convencer.
Mas quase me irritou, porque eu não era parva.
— Não posso, João, desculpa. Isto vale imenso dinheiro.
— Não vale mais do que o que tu me deste.
— Não brinques comigo.
— A sério.
— Por favor, João, não me faças de estúpida.
E preparava-me para lhe entregar o relógio, mas ele travou-me a mão a meio do caminho.
— Ouve, Mariana, se bem entendi deste-me a chave que me permite entrar e sair da tua vida sem ter de te pedir licença.
— Preferia que só entrasses... — confessei, timidamente.
Ele sorriu e reformulou o que havia dito.
— Deste-me aquilo que me permite entrar na tua vida sempre que quiser, sem ter de te dizer nada, sem ter de te avisar.
Fez uma pausa à espera de uma expressão da minha parte que confirmasse o seu raciocínio.
Mas como não obteve resposta, tentou com o sentido de humor.
— Posso entrar aqui sempre que quiser, roubar-te um projecto, um quadro... este, por exemplo. — Apontava para um Cargaleiro que me tinha sido oferecido pelo meu pai.
E conseguiu o que pretendia, porque arrancou de mim um sorriso.
— A liberdade não tem preço, e eu tenho aqui um pedacinho da tua.
Abanou ligeiramente as chaves que segurava na mão direita.
— És muito bom, João...
— Sou? — perguntou, sem saber bem a que é que eu me referia.
— A argumentar. Darias um excelente advogado.
E, embora ele tenha feito os possíveis para disfarçar, pareceu-me vê-lo sorrir por dentro, triunfante, porque o João adorava ganhar.
— Mas a mim não me convences! — disse por fim, concluindo o meu pensamento.
Olhei novamente para o relógio cheia de vontade de ficar com ele. Era lindo. Como era lindo ele ter-se lembrado de mim daquela forma, e saber que o meu preço era alto... Mas era exactamente por aí que eu não queria entrar. Toda a minha vida dividira contas com os meus namorados e, mesmo quando não o fizera, a diferença a meu favor fora perfeitamente aceitável. Toda a minha vida fora assim e agora estava ali, diante de uma situação que nunca me ocorrera. Diante de um homem com muitíssimo mais poder de compra do que eu, que nem meu namorado era, porque, bem vistas as coisas, e chamando-as pelos verdadeiros nomes, por mais que eles doessem, era amante. Não queria ter um preço, porque algo dentro de mim, provavelmente fruto da minha educação, me dizia que essas coisas mais tarde ou mais cedo se pagavam.
Voltei a fechar o relógio no estojo e procurei as palavras que menos pudessem magoar.
— Adorei, é mesmo muito bonito, mas sei que entendes que não posso aceitar.
— Por favor, Mariana.
Tive vontade de colocar o relógio no pulso, atirar-me para cima dele, enchê-lo de beijos e pagar-lhe na moeda mais valiosa que tinha, que era o meu amor por ele.
Coloquei o estojo sobre as suas pernas.
Ele as chaves sobre as minhas.
— O que é que queres dizer com isto? — perguntei, surpreendida.
— O que já te disse... que isto vale tanto ou mais do que o que te dei e que, por isso, também não vou poder aceitar.
— Isso é chantagem!
— Não é, não, minha querida.
— Mas...
Rodou sobre mim e tapou-me a boca com a mão.
— Não se fala mais no assunto, decidimos assim, está decidido.
Imobilizou-me com o peso do seu corpo. Prendeu-me as mãos ao nível da cabeça e, com os dentes, puxou-me a camisola interior para cima de forma a poder beijar-me os seios.
— Amo-te — deixei escapar pela primeira vez desde que nos conhecíamos.
— Quanto?
— Quanto? — perguntei, por entre uma gargalhada.
— Sim, quanto? Diz um número.
Tentei lembrar-me do número maior que conhecia. Ia começar a enunciar um composto por muitos noves, quando me lembrei de repente das aulas de matemática.
— Mais infinito — respondi, deixando-me ir para onde os movimentos do seu corpo me faziam tender.


Quando entrei na casa de banho, já ele tinha saído há mais de meia hora. Vi pousado em cima do bordo da banheira o estojo que ele me oferecera.
Soltei uma exclamação de surpresa, mas, ao mesmo tempo, não consegui deixar de sorrir.
Abri-o. Dentro estava o relógio e um pedacinho de papel higiénico que a tinta da Montblanc borratara completamente. Mesmo assim consegui ler: “Se pensavas que abdicava da minha prenda, estavas bem enganada. E, pelos vistos, este era o único processo de a conseguir. Já devias saber que não desisto facilmente. Beijos João”.
Pus o relógio no pulso. Ficava-me bem, ficava-me mesmo muito bem!
Corri para o quarto e peguei no telemóvel. Dava sinal a chamar. Óptimo, significava que ele ainda não o tinha desligado. Quando ouvi a sua voz do outro lado, disse:
— És tramado.
— E tu já o devias saber.
— Vemo-nos logo à noite?
— Amanhã.
— Hoje — ordenei, disposta a não ceder desta vez.
— Está bem, mas aponta lá para muito tarde, e pouquinho tempo, pode ser?
— Pode.
Desliguei o telefone.
Deitei-me em cima da cama e voltei a olhar para o relógio. Reparei que não estava certo. Mas, naquele momento, estava-me perfeitamente nas tintas para o que estava certo ou errado."

© Sofia Bragança Buchholz
In "De Mãos Dadas com a Perfeição" págs. 76-80; Editorial Presença 2003
 
publicado por Sofia Bragança Buchholz às 04:46
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