Domingo, 3 de Outubro de 2010

O homem que não sonhava sequer o que era o amor

Se vieres sempre à mesma hora, algum tempo antes, vou começar a sentir-me feliz. Mas podes vir mais cedo!”, gracejou ele um dia, naqueles primeiros, em que se começaram a descobrir. Ela, mais cautelosa, advertiu-o que era rosa de um único jardim, mais importante ainda: que era rosa que se quer única num jardim, que se quer cuidada, regada com carinho, amada em exclusividade.
Antes de ser cativada, foi instruindo-o das regras, como se as houvesse, quando de sentimentos se trata, como se existissem certezas adquiridas quando se mexe com o coração. Ele ouviu-a, compreendeu-a e foi esperando, pacientemente, por ela, que acabou por vir todos os dias, primeiro à mesma hora, com a razão ainda a controlar, depois já um pouco mais cedo e, no fim, já muito, muito tempo antes, totalmente entregue à emoção.
Foram assim preenchendo o espaço em branco que os separava, pincelando a tela da descoberta, confessando gostos e preferências, maneiras de ser e de pensar, sorrindo como garotos, agindo como garotos, felizes como garotos, primeiro atrás de um ecrã de computador, depois em jantares românticos, depois já nos braços um do outro em quartos de hotel.
Dançaram juntos, andaram de mãos dadas, furtivamente, pela cidade, roubaram beijos um ao outro no meio da multidão, sem medo de serem vistos, não se importando com nada a não ser com estarem um com o outro, arriscando serem reconhecidos, serem, inconvenientemente, identificados. Ficaram horas acordados: oito, dez, dezasseis seguidas, mesmo quando a distância os apartava. Almoçavam juntos pelo telefone, trabalhavam juntos por e-mail, viam-se, falavam, tocavam-se pela Internet.
E o coração dela foi enchendo. Enchendo-se de dúvidas quanto às certezas que tinha como adquiridas na sua vida passada, enchendo-se de brechas por onde o amor dele foi entrando, avassaladoramente, como a água de uma barragem que rebenta; enchendo-se de afecto, de ternura, de desejo por ele.
E, quando ela, à deriva naquele turbilhão, lhe perguntou o que fazer com tantos sentimentos, o que fazer com aquele coração tão cheio, tão cheio que ansiava por ele todos os minutos, todos os segundos a que a paixão, no seu principio, tem direito, ele respondeu-lhe assim, como se fossem casados há muito, muito tempo: “vais trabalhar, deitares-te cedo, distraíres-te, ter uma vida normal”. E ela foi. Definitivamente embora da vida dele.
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 05:03
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