Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

Pobres mas gloriosas

Ontem bateu-me à porta de casa a Paula. Não foi à porta do prédio, foi de casa mesmo. Talvez tenha sido a familiaridade com que se apresentou que lhe deu o livre-trânsito de entrada no edifício: “é a Paula”. Foi o que me disse quando entreabri a porta para ver quem era e pasmei a olhar para uma completa desconhecida.
A Paula devia ter a minha idade. Talvez mais nova, mas os maus-tratos da vida faziam-na parecer mais velha. Era desdentada, tinha o cabelo oleoso e a cara demasiado vincada. Tinha seis meninas, informou-me. Balbuciava com uma intimidade que não gostei – a mesma da apresentação – que alguém a tinha deixado com as seis crianças. Adivinhava-se ali heroína e não é metaforicamente falando. Fez questão de mas mostrar e desfilou uma série de cartões e fotografias em que mal se viam as diferenças entre elas, podendo, as seis, ser uma só. Estranhei não haver uma foto de conjunto de todas, mas estive tentada a dar-lhe alguma coisa, pois mesmo sendo tudo aldrabice, era inegável que estava ali a miséria. Contudo, houve, a certa altura, um pormenor que me fez mudar de ideias; um pequeno detalhe determinante na minha decisão: no meio de BI`s e cartões do Sistema Nacional de Saúde, a Paula exibiu os cartões de sócias do Futebol Clube do Porto das filhas. Pobres mas gloriosas. Não é nada contra o clube, garanto, mas, pura e simplesmente, aquilo na minha cabeça soou demasiado estranho.

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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 18:34
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1 comentário:
De José M. Barbosa a 11 de Dezembro de 2008
Como não sou ninguém para dar conselhos nem conheço os especímens :

1)Duvide
2)Ponha-se a milhas.

Pois...

Z.

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