Segunda-feira, 18 de Abril de 2005

De Mãos Dadas com a Perfeição

"...

Ao todo foram talvez quatro, as vezes que nos encontramos na clínica para nos amarmos.
E se, da primeira vez, a iniciativa foi dele, de todas as outras a ideia partiu de mim. Ele hesitava, sem nunca mencionar porquê, sugeria o hotel ou então acabava por aparecer em minha casa. Mas daquelas três vezes, o tempo — escasso — jogara a meu favor, e ele, apanhado na teia do desejo, fora forçado a ceder.
Encontrar-me ali com ele foi a maneira melhor que arranjei de entrar no seu mundo, de partilhar a sua vida oficial sem ser de uma forma clandestina. E isso excitava-me. Excitava-me profundamente, o que acabava por se reflectir nele também, pois era arrastado por mim.
Os nossos melhores encontros de amor foram ali, onde o sexo era rápido, mas intenso, onde o cenário era pobre, mas a performance perfeita. Na sua cadeira, encostados à parede, na mesa, com parte da roupa colada a nós, deixávamo-nos ir para onde a paixão nos levava, algures onde não havia limites. Abafávamos gemidos, evitávamos barulhos, e ao fazê-lo explodíamos em prazer, porque uma mão que nos tapa a boca e um corpo que se move mais devagar estimula fantasias e elas aumentam de dimensão quando adquirem o gosto do pecado, o sabor do fruto proibido. Ali era a sala do responsável máximo por aquela clínica, onde deviam ser atendidos doentes, onde era suposto estar o médico, o técnico altamente especializado a fazer diagnósticos e prognósticos. Ali estávamos nós, misturados um no outro, um só, confundidos no suor, na saliva, no ritmo cardíaco. Ali estávamos nós, entregues um ao outro, colados, como uma lapa a uma rocha, em que só uma pancada certeira, apanhada de surpresa, nos faria descolar.
Naquele dia tocou o telefone, e não sei aonde o João arranjou folgo, pois a voz tremia-lhe, como me tremeria a minha se tentasse falar. Estava sentada em cima dele, com ele dentro de mim, as minhas costas contra o bordo da secretária a deixar-me um vergão vermelho na altura da cintura, quando ele passou a mão direita sobre a minha cabeça numa ginástica que não sei explicar, alcançou o telefone e voltou a passá-lo para o mesmo lado, mas agora por detrás das minhas costas. Com a outra mão desviou a minha cara do bocal, e eu fiquei a arfar contra o seu peito, descompassadamente.
— Sim, Isabel... — ouvi-o engolir para disfarçar ou controlar o “el” que lhe saiu de uma forma esquisita, ou talvez para ganhar fôlego para prosseguir a frase —, diga-lhe que espere cinco minutos, que eu estou a acabar de atender uma doente.
E desligou o telefone. Soltou a mão esquerda que, pousada na minha cabeça, me puxava contra si e, juntamente com a direita, passou-a nos cabelos num gesto nervoso, respirando fundo como se tentasse recompor-se. Eu continuei encostada a ele, a ouvir o seu coração, a sentir o seu latejar dentro de mim. As suas mãos pousaram agora nas minhas costas e interpretei-as como um sinal para recomeçar. Lentamente o meu corpo começou a mover-se, à procura do seu, do seu ritmo, do nosso ritmo, mas ele tentou parar-me com a voz, com o som do meu nome.
— Mariana...Eu continuei, e, como ele não se mexia, concentrei-me em mim, porque às vezes, no amor, somos egoístas. Movi-me, beijei-o, voltei a mover-me. Queria dar ao meu corpo o que ele pedia, queria terminar o que começáramos.
— Mariana... — repetiu.
E eu encostei-me mais a ele, usei as mãos para o persuadir.Mas de repente senti a pancada, certeira, o som oco da pedra contra a pedra, bem na minha cabeça.
— A Luísa está lá fora...
O meu corpo traía-me, falava por mim.
— Deixa que ela nos veja assim abraçados...
O meu corpo não sabia que, quando as lapas não se separam da rocha à primeira pancada, acabam geralmente desfeitas à segunda.
— Mariana, por favor, a minha mulher está lá fora. Eu não posso...
E eu levantei-me rapidamente. Olhei à minha volta à procura de pedaços de mim. Estava inteira. Felizmente saíra dele antes de ser esborrachada.
Ele tentou ainda agarrar-me a mão, mas esta, no lado oposto da sala, ajudava-me já a vestir a camisola de gola alta que, ao passar-me na garganta, ainda a apertava mais.
Quando o olhei antes de sair, lembro-me de me ter questionado como é que a mulher dele não iria perceber que ele estivera a fazer amor comigo, porque eu perceberia pelos seus olhos, pelos seus cabelos, pela sua voz... E lembro-me de isso me ter dado um certo gozo, um gostinho de vingança!
— Mariana...
Parecia que era a única coisa que conseguia dizer ou fazer, porque continuava sentado na cadeira e, apesar de ter vestido as calças, a camisa continuava desabotoada e a gravata e a bata espalhadas pelo chão.
Eu resolvi facilitar-lhe a vida e, se o fiz, não foi por altruísmo, mas sim porque entendi que assim facilitava a minha também. Fiz um gesto com a mão, como se lhe pedisse para parar.
— Ouve, João, não digas nada... não digas nada.
Esta fora apenas a primeira etapa da prova de engolir sapos em que me metera.
No corredor estava a mulher dele, à espera que eu saísse para entrar. E se na primeira prova eu perdera, nesta queria sair vencedora. Passei por ela e, sem verdadeiramente a olhar, medi-a de alto a baixo. Tive a sensação, mas pode ter sido só a sensação, que ela fez comigo a mesma coisa. Era morena, de cabelos lisos pelos ombros. Devia ser sensivelmente da minha altura, mas a sua estrutura óssea era bastante mais larga. Ao contrário do que sempre pensei, não a achei bonita, mas tinha “pinta” e estava muito bem vestida.
Quando nos cruzámos, levantei bem a cabeça, como a minha mãe sempre nos ensinara a fazer nas situações difíceis. E o que mais me surpreendeu e me apanhou mais uma vez desprevenida, é que ela me olhou, me sorriu e me dirigiu a palavra:
— Boa tarde.
Eu entupi. Não saiu nenhum som. A segunda prova estava superada, mas a pontuação era zero. Senti a minha cabeça baixar e, quando deixei a clínica e me dirigi ao elevador, achei que eu não era eu, mas sim uma tartaruga e que a minha cabeça se escondera na carapaça. Fiquei parada em frente ao elevador, lenta como as tartarugas, e só depois de muitos minutos estendi o dedo para o chamar.
A porta abriu-se e saiu o Francisco. Decididamente não estava nos meus dias, se bem que desta vez até nem me tenha saído muito mal.
— Olá Mariana, como está?
— Olá Francisco, bem disposto?
— Nem por isso, mas, depois de ver uma pessoa tão bonita como a Mariana, fica-se logo bem disposto.
Eu sorri maliciosamente e estendi-lhe a mão, porque sabia que o Francisco era um gentleman, um beija-mãos.
E esse foi o momento de glória desse meu dia tão inglorioso e valeu a pena, porque foi a única coisa nesse dia que me fez sorrir. A minha mão, aquela mesma mão que momentos antes passeara no João e em mim própria, estava agora perto dos lábios do Francisco. A minha mão, aquela mesma mão que testemunhara há momentos o nosso amor e que cheirava a sexo, pousava agora perto do seu nariz. E quando entrei no elevador, para descer até ao rés-do-chão, imaginei o Francisco na sua sala, agarrado à sua mão, que cheirava à minha, a fazer aquilo que eu e o João não acabáramos.
Segui até ao carro com o meu pequeno triunfo a esconder as minhas grandes derrotas.
Entrei no parque de estacionamento e passei pelo carro do João, que estava a dois lugares de distância do meu. Veio-me a tristeza, a humilhação, a falta de dignidade à memória. E a vingança, esse sentimento mesquinho e primário veio também, e instalou-se nas minhas mãos, que seguravam as chaves do meu carro. Contornei o seu automóvel lentamente, uma, duas vezes. As chaves apontadas a ele, prontas a arranharem, a magoarem.
Mas outro sentimento protegeu-me deste, e não foi o bom senso. Enquanto o exteriorizava, deixei que uma série de expressões faciais e verbais acompanhassem o meu raciocínio, baixando assim o nível, até ao limite aonde a minha raiva me obrigou.
— Puta! O que é que esta tipa tinha que vir fazer aqui?! Ela não o larga! Não o larga!Provavelmente está lá em cima toda meiguinha a...
E imaginá-los a fazer amor deixou-me ainda mais furiosa. Entrei no carro e bati a porta com força. Ainda o sentia dentro de mim e, se me tocasse a mim própria, provavelmente ainda encontraria o espaço que o seu corpo conquistara ao meu. E era de sexo que falava, porque já não queria falar de outras coisas. Não queria falar do meu filho, porque com ele não conquistara só espaço no meu corpo, mas também na minha alma, na minha vida.
Tive vontade de vomitar, cheguei mesmo a abrir a porta do Golf. Não o queria partilhar com ninguém, queria-o só para mim. E, provavelmente, ela também. E se lutava por ele estava no seu pleno direito, mas eu detestava-a, ai como a detestava!"




© Sofia Bragança Buchholz
In "De Mãos Dadas com a Perfeição" págs. 153-157; Editorial Presença 2003

 

publicado por Sofia Bragança Buchholz às 03:18
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