Sábado, 21 de Dezembro de 2013

Vai correr tudo bem

Abraça-me, Meu Amor, embala-me, como se faz aos bebés. Não digas nada, não confesses nada. Sussurra-me apenas esta mentira: “vai correr tudo bem”.

 

publicado por Sofia Bragança Buchholz às 06:49
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Terça-feira, 3 de Abril de 2012

Vidas simples

Numa das ruas estreitas da Foz, existe uma mercearia abandonada. Na montra, como uma mercadoria esquecida, repousa um grande e gordo gato siamês. Enroscado sobre si mesmo, ignora os olhares dos transeuntes, entregue a um sono profundo apenas interrompido para seguir a posição dos raios de sol e se ir aninhar uns centímetros ao lado, onde ele incide com maior intensidade.
Todos os dias, passo, olh...o-o e invejo-o. Desafio-o a mirar-me; não quer saber. Ignora-me. Ignora ter de interagir com os outros, ter de ser reconhecido por eles, ter de construir uma carreira profissional. Ignora a necessidade de ser amado, a dor da rejeição, a dificuldade de um relacionamento conjugal.
A ele bastam-lhe uma nesga de sol, uma fêmea na época de acasalamento e um ou outro, ratitos que passem por ali.

 

publicado por Sofia Bragança Buchholz às 19:08
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Sobre Demiurgo

"(...) Este ente tem a arrogância típica dos que se acham onipotentes. Criador de tudo que conhecemos, acha que todos devem curvar-se a sua vontade: "Não terás outros deuses diante de mim" é seu lema.

No mito Gnóstico o Demiurgo foi gerado pelo eon Sophia após sua queda. Ao ser gerado, criou o mundo material com o objetivo de governar e aprisionar na matéria as partículas divinas provenientes de sua mãe (Sophia).

Querendo libertar as almas aprisionadas ao mundo material, Sophia rebela-se contra o Demiurgo, e o verdadeiro Deus Inefável envia aos homens o seu filho mais querido, o eon Christós ou Cristo que desce ao mundo material com o objetivo de transmitir a "Gnosis" (conhecimento) às almas para que elas tenham consciência de sua identidade divina e partam para o Pleroma libertando-se do jugo e da escravidão do Demiurgo.

Com o objetivo de impedir que isso ocorra, o Demiurgo cria inúmeras ilusões e prazeres materiais efêmeros para afastar as Almas de sua legítima parcela divina, de modo que estas estejam presas e sejam escravas do mundo material, tendo que sempre a ele retornar (reencarnação). O Demiurgo é o governante desta pequena Esfera de Vida onde reina absoluto."

 

[in Wikipédia]

 

publicado por Sofia Bragança Buchholz às 04:34
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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

Portos Seguros

Lunata desceu dos sapatos altos, quando chegou a casa. Despiu-se do vestido, enquanto percorria o corredor, deixou cair a máscara ‒ de falsa felicidade ‒ que usara nessa noite. Vinha da festa, daquela que lhe disseram para ir. Mais uma, desde que Demiurgo a deixara. “Procura outros homens, para esqueceres o que já não te quer”, aconselhara-a, uma Sábia. E Lunata procurou. Dia após dia, festa após festa, experimentou conversas e cheiros, bocas e corpos. E os dias somaram-se numa solidão exponenciada por uma busca frustrada, porque ninguém preenche o lugar daqueles que ainda amamos. E nem a música faz a vez de um abraço verdadeiro, nem a dança, a do sexo com amor, nem a excitação da descoberta o conforto de um porto seguro.

 

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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 04:07
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Sábado, 5 de Fevereiro de 2011

O Sentido da Vida

Finalmente, aconteceu o inevitável, aquilo que Lunata sabia que mais tarde ou mais cedo acabaria por suceder: Pato Preto deu entrada no hospital. Estava velhinho, Pato Preto, e Lunata tentava com toda a sua fé ludibriar o destino e adiar a ideia deste desfecho, mas o destino não se deixa enganar e o que tem de ser tem muita força.
Nessa tarde, Lunata foi dar com o amigo deitado numa cama impessoal, prostrado, oscilando entre a vigília e o sono, entre a lucidez e a demência. Vê-lo assim fê-la consciencializar-se de que, ao contrário do que muitas vezes nos querem fazer acreditar, não há dignidade, sapiência, beleza na velhice. Pegou-lhe na pata, mais sarapintada do que nunca pelo tempo, acariciou-lhe os nódulos das artroses, as rugas do tempo, beijou-as com ternura. Desejou poder levá-lo para o seu mundo da lua, o mundo de faz de conta onde os seres são eternos, como ela, onde não existem doenças, onde a morte não entra. Mesmo velhinho, pensou, Pato Preto era tão bonito!, o bico arrebitado, perfeitinho… Continuava vaidoso: pediu-lhe que lhe ajeitasse a gravata branca que lhe desce sobre o papo, que lhe alisasse as penas. Ela fê-lo com carinho. Ele fechou os olhos, profundos como todo tempo que já percorrera, vagos, como o tempo que ainda lhe restava e chamou-lhe “mãe”. “Mãezinha”. Ela comoveu-se. Aquela inversão de papéis rebentou-lhe o coração, despedaçou-a. Ele, o forte, que sempre fora um pai para ela, a menina, a frágil. Para essa inversão, não estava preparada. Ela que precisava ainda tanto dele! Desatou num pranto por dentro. Respondeu-lhe que era a sua “filha”, a sua “filhinha”.
Pensou revoltada: onde estaria, agora, Demiurgo que lhe jurara amor, na alegria e na tristeza? Onde estava a esperança que nos prometem na infância? A felicidade em que nos fazem tanto acreditar? Depois resignou-se. Pensou que a vida é uma longa caminhada, uma complexa aprendizagem, um caminho tortuoso que nos faz crescer e que no fim deve − tem de! − ter um qualquer propósito.
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 02:12
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Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Uma batalha perigosa

Às vezes, Lunata ainda se lembra de Demiurgo. Lembra-se do tempo em que o seu coração se amarrara num nó que parecia não querer desfazer-se, por causa dele. Lembra-se das noites sem dormir, da solidão (mesmo vivendo acompanhada), do medo da sua partida. Agora, a milhões de luas de distância − que é como se mede o tempo das fadas − não percebe porque arrastou tantos anos aquela dor. O que a prendeu tanto tempo àquele suplício, àquele sofrimento. Parece-lhe tudo uma tolice. Um episódio de adolescente, inexperiente, à mercê de hormonas impostoras. Mas na altura, Lunata teria sido capaz de morrer por ele. Teria sido capaz de arrancar as suas asas de fada e viver para sempre enclausurada na tristeza daquele amor. Lunata não acreditava que havia, para além dele, um futuro. Lunata não acreditava que, sem ele, poderia ser feliz. Vivia no passado, agarrada aos tempos que haviam sido bons, forçando-se a ignorar um presente miserável, enganando-se a si própria. Apanhava migalhas de felicidade no chão e tentava convencer-se que eram suficientes para alimentar aquela relação. Mastigava-as devagar para as fazer render, para fazer durar o seu sabor. Vivia com fome, em anorexia, pele e osso, mas sempre em negação.
Hoje Lunata é robusta e forte, elegante, e gosta de si assim. Hoje Lunata é feliz. Mas sabe que o amor é uma ratoeira e que, quando vem, com os seus perigos, é uma batalha arriscada que nem a experiência pode valer.
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 04:46
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Sábado, 19 de Dezembro de 2009

O principio do nada

Passaram 1252 anos no tempo das Fadas. Lunata está sentada à janela, embrulhada num xaile. Na sua cadeira de baloiço, já não se balança. Olha o vago, o infinito, o nada. Tem os olhos fundos e baços, inexpressivos, dos seres de muita idade.
Lá, ao longe, o sol põe-se por detrás da Floresta Encantada já sem encanto. É o fim da estação fria, o principio do nada. Lunata não se lembra de Demiurgo, nem de Millstreet, nem de Pato Preto. Lunata não se lembra de nada. Solidificou a memória como solidificaram as suas articulações. Apagou as recordações como se apaga o seu coração. É a mente a acompanhar o corpo e este a fugir[-lhe] à velocidade da luz.
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 18:57
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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

A explicação

Como sabem, faz tempo que não sei de Düss El Dwarf, o meu amigo gnomo.
Hoje apareceu-me, inesperadamente, à porta de casa com duas malas pequeninas, uma em cada mão. Ao ver a minha expressão de espanto ao abri-la, elucidou-me:
– Sei que precisas de mim. Sei que te andam, propositadamente, a fazer mal.
Depois, quando já no sofá da sala lhe explodi em pranto no colo, explicou-me:
– Sabes, nós, os homens, somos mesmo assim. Quando estamos apaixonados ou precisamos de vocês, mulheres, andamos à vossa volta como crianças sôfregas pela atenção da mãe. Já quando a vida nos corre bem, tornamo-nos adolescentes rebeldes, ávidos de liberdade e sede de descobrir o mundo, incapazes de controlar os actos e as palavras, mesmo sabendo que estes podem magoar. Às vezes, fazemo-lo até propositadamente: [pequenas] maldades para alimentarmos o ego; para nos sentirmos bem. É mais forte do que nós. Somos básicos. Somos animais!
 
publicado por Sofia Bragança Buchholz às 03:57
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Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Tempos Modernos

Imagem: The collection of erotic photos XIX-XX century

Demiurgo descobriu o Facebook. Assina Demiurgo Bernardo d` Eça. Assim mesmo, com três nomes como todo o homem de bem naquela rede social, e apóstrofo. Escreve sábias frases de refinado humor político no mural, mas no chat conversa com mulheres de carnes fartas que dão pelo nome de Elisabete ou Carmem. Troca com elas fotografias menos próprias – ele de ceroulas, a esconderem-lhe debalde a erecção tímida; elas escancaradas, a oferecem-lhe o sexo ou a apelarem-lhe, desavergonhadamente, a ele.
E sozinho, à noite, de lunetas encarrapitadas no nariz aquilino e de olhar atento, já desapossado de paletó e fato, dá-se aos prazeres do onanismo, enquanto lhes contempla regozijado as redondas nádegas brancas.
 
publicado por Sofia Bragança Buchholz às 06:14
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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

O Casúlo

Lunata escovou os cabelos, tantas vezes, até o ultimo lhe cair.
Apanhou-os do chão, uniu-os e tricotou-os horas a fio.
Não dormiu. Não comeu. Não viu a luz do sol, nem a da Lua nascerem. Não falou com ninguém, não olhou, lá no alto, a sua cratera.
Teceu com obstinada determinação uma teia compacta em forma de casulo onde, quase finalizada, se enfiou. Já lá dentro, selou-a com os últimos pontos e apagou-se da vida da Terra. Adormeceu; até que a Primavera a viesse despertar.
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 23:47
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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Olha, nem foi preciso!

"Olá Lunata,

Não. Não tenho ido ao parque. Vieram as férias e foram-se tal como vieram... sempre apressadas. Não têm férias as férias. E depois não têm sido férteis aqueles dias de ida ao parque: meteorologicamente estivais mas com chuva a tentar surpreender quem não tem penas. Acho que, se por hipótese, amanhã chovesse pelo fim da tarde, eu era capaz de ir ao parque. Levaria uma polaroid para fotografar o pato preto a comer migalhas de pão umas atrás das outras... depois, deixar-lhe-ia uma fotografia para ele guardar no álbum da família... e se não chover?

Um beijo,

Demiurgo
"


E se não chover? Se não chover, ora, Demiurgo, é simples, basta fazer de conta!
Afinal, não é isso o que melhor sabemos fazer?

Um beijo da tua sempre,

Lunata


PS: Olha, nem foi preciso! Chove lá fora! E não, não estou a regar as minhas rosas...
 
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 15:33
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Domingo, 20 de Abril de 2008

Na Redoma

© Imagem: Vladstudio (click na imagem para ampliar)

Lunata tem estado silenciosa. Fechada no seu mundo da Lua. Já não vê razões para de lá sair; para rever Demiurgo, procurar Paquito, estar com Pato Preto.
Chove na Terra e Lunata abriga-se, indiferente, na sua cratera. Faz vento, e ela nem sabe, porque na Lua não venteja. Revolta-se o mar, e ela nem imagina. Protegida no seu manto branco, ela não corre riscos. Não sofre. Não sente.
Pena é que, quando desabrocharem as flores, ela não vá presenciar tamanha beleza!
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 05:36
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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007

Álbum de Recordações (IX)

© Imagem: Vladstudio (Click na imagem para a ampliar)

Lunata decorando o seu Mundo da Lua com as chaves da felicidade.
 
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 15:54
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Sábado, 15 de Dezembro de 2007

The Meaning of Life

– Por que é que estás mal?
– Porque não sei o que quero; não percebo o sentido da vida.
– O sentido da vida é tão simples como isto: é a própria vida.

Excerto de conversa entre Lunata e Stefokles
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 00:24
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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

O Ciclo da Vida do Amor (II)

Lunata tem saudades de Demiurgo. Daqueles – primeiros – meses em que se descobriram, daqueles primeiros tempos em que levantaram as pontas aos véus das suas personalidades e se deslumbraram com elas; se maravilharam com o desconhecido um do outro! Dos dias, vinte e quatro horas, vividos a dois, trinta e um dias repetidos com a mesma vontade, surpreendentemente, sem cansado ou exaustão.
Lunata tem saudades da época em que os tiques eram ainda características; as acusações, frontalidade; os vícios, persistência. A indiferença, culpa da escassez de tempo; as desavenças, mal entendidos; as provocações, brincadeiras.
Lunata queria (tanto!) poder voltar atrás, retroceder, até aí, o tempo, e recomeçar a história. Apagar com uma borracha encantada os borrões da narrativa, reescrevê-la de forma correcta (e feliz) com uma caneta mágica.
Mas Lunata não pode. Porque é [sempre] assim na vida: tudo o que nasce, morre; tudo o que começa, termina; tudo o que se descobre, desaparece… tudo o que é de mais, cansa. E foi de mais, o seu amor por Demiurgo.
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publicado por Sofia Bragança Buchholz às 22:33
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Espelho meu...

Nome: Eterna Descontente
Local: Lua, Mundo da Lua
eternadescontente@gmail.com

O meu alter-ego:
Sofia Bragança Buchholz

© Reservados todos os Direitos de Autor. Todos os textos, excepto quando devidamente assinalados, são da autora e a sua reprodução encontra-se interdita.

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