Quarta-feira, 20 de Julho de 2005

O Filme

Dirigi-me à bilheteira do cinema e pedi um bilhete.
— Central, por favor, e se possível à frente.
— Está esgotado — respondeu indiferente a senhora. — Quer um bilhete para a próxima sessão? — perguntou.
Mas também para mim era indiferente. Ir à sessão das vinte e duas ou das vinte e quatro horas, ver o filme X ou o Y, ir ao cinema ou não ir. E, como na minha indiferença permanecia com a nota de cinco euros pousada em cima do balcão, recebi em troca um bilhete para o lugar número sete, na fila A, para a sessão da meia-noite.
Por mais estranho que possa parecer, senti uma enorme felicidade por aquela mulher ter decidido algo por mim e por me ter poupado ao esforço de, mais uma vez, ter de decidir o que fazer na minha vida. Foi por isso que esbocei um sorriso, mais de gratidão do que de simpatia, quando fechei a carteira e me fui embora.
O cinema ficava no último piso de um centro comercial moderno. Era um local animado, cheio de luzes e cor, onde predominavam os dourados. Era um lugar onde existiam McDonalds, casas de Doughnuts, de Hamburguers, de Crepes, e se passeavam teenagers, trintões, cinquentões... enfim, gente de todas as espécies e feitios. Era mais um daqueles locais de culto do fim do século XX: um bloco enorme de cimento, recheado de lugares onde se pode consumir, aberto, quase, vinte e quatro horas por dia. Mais um desses “santuários” do nosso tempo, onde “gastar é ganhar”, não sei bem o quê.
A zona das fast-foods era perto do cinema e foi mesmo ali que fiquei. Não porque me pretendesse envenenar, mas por ser mesmo o lugar mais perto. Sentei-me numa das mesas entre a casa das Sandwiches e a dos Doughnuts e fiquei à espera que alguém me viesse perguntar o que queria. Foram precisos apenas alguns segundos para me lembrar que, como exemplar deste século, também ali se seguiam as regras deste tempo, a lei do “cada um por si” e que, se quisesse tomar alguma coisa, teria de ser eu a ir buscar. Permaneci sentada. Mais uma vez mais por indiferença do que por renitência à morte da solidariedade. Fiquei assim muito quieta, tentando observar, mas nada vendo, suspirando em busca de oxigénio, perdida nos meus pensamentos... Fiquei assim uma eternidade, ou talvez alguns minutos até ser acordada por alguém que me disse:
— Joana? Estava cheio de saudades tuas!
— Manel João?! — Balbuciei, em pânico. E disfarcei: — Então? Há quanto tempo!
Em fracções de segundos o meu coração disparou. Todas as minhas funções vitais se activaram, e o meu cérebro tentou um plano: como conseguir esconder a minha infelicidade, a minha fraqueza, a minha angústia, a minha solidão...? Mas facilmente percebi que isso seria impossível, pois era sinónimo de “como me esconder?”, e eu não podia, era tarde, pois já tinha sido descoberta.
O Manel João era daquelas pessoas difíceis de descrever. Um fenómeno social. Jogador por natureza, investidor de formação, era um enfeitiçador de mulheres. Havia quem o achasse um génio, quem o achasse um imbecil, mas a verdade é que, fosse por que razão fosse, toda a gente falava dele. E isso deslumbrava-o, alimentava-lhe o “ego”, deixava-o confiante. A modéstia não era, decididamente, uma das suas qualidades. Quase todas as minhas amigas tinham caído na sua teia, ou mais concretamente, na sua cama.
E eu que me sentia tão cansada... tão sem forças para pôr “as garras de fora”... tão receptiva a carícias...
— O que tens Joana? Estás tão triste! — E, sem me dar tempo de responder: — O Paulo arranjou outra?! — Atirou, ele, a matar.
Mesmo antes de poder mentir: “— Não, não foi bem assim...” as lágrimas saltaram-me dos olhos, uma após outra, cada vez mais depressa, como que felizes por se verem em liberdade, como as crianças quando brincam no parque, saltando do escorregão, e deslizando depressa, para irem desaguar na grande boca de areia.
— O Paulo pôs-te os cornos?!...
E eu senti-me ainda mais desarmada, pois já nem unhas tinha de tanto as roer, quanto mais garras para me defender.
— E tu nem desconfiavas?!
Acabou comigo. Soltei um soluço, e outro e outro. Tantos soluços soltei, que foi fácil fazer-me aceitar o convite de ir até ao seu apartamento pois, caso contrário, em vez de ter o grupo de adolescentes e o casal de meia-idade, que estavam sentados nas mesas próximas de nós, teria todo o “santuário” de olhos postos em mim.
No carro não disse uma palavra, pois sabia que, naquela situação, o silêncio era a minha única arma. Deixava-o adivinhar, sem confirmar nem desmentir, dobrando em pedacinhos, o bilhete do cinema que segurava entre os dedos.
— Eu sempre te disse que uma relação à distância não funciona... É impossível — dizia. — Não há relação sem sexo — garantia, como se fosse perito em psicologia conjugal. — Eu não te avisei, Joana?! Os homens não resistem quando ficam sozinhos.
Nisso ele tinha razão, sim, tinha avisado.
— E tu, confessa lá, nunca dormiste, mesmo, com ninguém enquanto andaste com o Paulo?
A esta tive de responder. Mas não foram precisas palavras para o fazer. Desviei o olhar, lentamente, e fitei-o nos olhos, com o olhar semi-cerrado. Ele não respondeu, mas se conheço bem a sua linha de raciocínio deve ter pensado: “pata”.
No elevador subimos até ao quinto andar. Fez-me uma festa no cabelo e disse:
— Deixa lá, o Paulo nunca foi tipo para ti. És muito inteligente, tens muito valor... o Paulo não vale um caracol.
Nisso ele, também, tinha razão, pensei meio cínico, meio ironicamente. Mas quando entrámos em casa e nos sentámos no sofá, soube, desde logo, que nunca mais iria ter descanso.
— Mas conta lá, como é que aconteceu?
— Quem é a tipa?
— Foi há muito tempo?
Só havia uma maneira de saciar a sua curiosidade e de o fazer calar. Deitei a minha cabeça nos seus joelhos e aninhei-me, assim, no sofá. O Manel João, no fundo, era boa pessoa… E deixei que me afagasse o cabelo. Deixei-me deliciar, enquanto as suas mãos me roçavam ao de leve o pescoço...
Ficámos assim muito tempo, como um pai que cuida da sua cria, como um gato que prepara a sua presa. Seja lá como o que for, sabia tão bem, e eu estava tão cansada... Ficámos assim até que eu me virei, ficando com a cara para cima de maneira a poder fita-lo nos olhos. Ele disse:
— Sabes que sempre gostei muito de ti, não sabes?
E eu, como que por milagre ou feitiço, já sem estar cansada, com uma confiança e clareza vindas não sei de onde, respondi:
— Sei que gostas de muita gente. Sei que gostas essencialmente muito de ti.
E com um sorriso de quem possui um trunfo, passei os braços em laço à volta do seu pescoço e fiz descer a sua boca até à minha, aceitando, finalmente, entrar no jogo.


— Manel João?
— Hum?
— De qualquer das maneiras, isto nunca aconteceu entre nós — avisei, mais para me convencer a mim própria do que na esperança de que a promessa fosse cumprida.
E adormeci exausta, com a certeza de que no dia a seguir ainda me iria sentir mais cansada.

© Sofia Bragança Buchholz . Reprodução Interdita
publicado por Sofia Bragança Buchholz às 16:23
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