No comboio, ao meu lado, uma rapariga com sotaque brasileiro, conversa ao telemóvel. Fala num tom meigo, assertivo, tentando acalmar a voz do namorado que, do outro lado, adivinho exaltada. Trata-o por “quirido”, tenta um tema que o distraia da sua ira, diz-lhe que quer ver o cabelo dele… Ele, mal-encarado, continua a cuspir monossílabos ásperos. A certa altura, sentindo-o desligar-lhe o telefone na cara, exclama desesperada: “Nossa, qui grosso!”, e atira, frustrada, o telemóvel para cima da tábua aberta das costas da cadeira da frente. Com as lágrimas nos olhos, desabafa, ainda, sozinha: “Essa doeu, viu?!”. Eu não resisto, e interferindo na conversa que não me diz respeito, solidarizo-me com ela: são todos iguais: umas bestas!
Numa das ruas estreitas da Foz, existe uma mercearia abandonada. Na montra, como uma mercadoria esquecida, repousa um grande e gordo gato siamês. Enroscado sobre si mesmo, ignora os olhares dos transeuntes, entregue a um sono profundo apenas interrompido para seguir a posição dos raios de sol e se ir aninhar uns centímetros ao lado, onde ele incide com maior intensidade. Todos os dias, passo, olh...o-o e invejo-o. Desafio-o a mirar-me; não quer saber. Ignora-me. Ignora ter de interagir com os outros, ter de ser reconhecido por eles, ter de construir uma carreira profissional. Ignora a necessidade de ser amado, a dor da rejeição, a dificuldade de um relacionamento conjugal. A ele bastam-lhe uma nesga de sol, uma fêmea na época de acasalamento e um ou outro, ratitos que passem por ali.
"Enquanto seres humanos, somos especialistas no estudo dos comportamentos de acasalamento das outras espécies. (...) No que toca a escolher um parceiro para nós mesmos, porém, poucos seres humanos parecem ser bem-sucedidos, quanto mais entender verdadeiramente o processo dessa escolha. A maioria das espécies animais não parece ter grandes problemas na escolha de parceiros, nem a lidar com os relacionamentos. (...) O estado dos nossos relacionamentos com os nossos parceiros - ou a falta de parceiros - constitui fonte constante de discussão (...). Poucas coisas nos causam tal prazer e alegria, ao mesmo tempo, provocando-nos paradoxalmente tanta dor e desespero." (Allan e Barbara Pease)
Fui ontem ver o "Shame". Um filme sobre a solidão, como um homem e uma mulher a (sobre)vivem. Ele, refugiando-se atrás da frieza de um escudo e de um falso equilíbrio que o faz parecer intocável, mas a todo o momento capaz de ruir ao mais pequeno toque. Ela, implorando afecto, autodestruindo-se para sobrepor a dor física à emocional, ou mesmo acabar com ela de vez. Um filme sobre a dificuldade de comunicação: a incapacidade dele em verbalizar emoções, de as aceitar, de as reconhecer, até, e o exagero dela em manifestá-las, em mendigá-las. Duas pessoas sós, tão sós, dois irmãos perdidos na impotência de um abraço quando é, tão só, isso o que ambos precisam.
Love is a temple, love is a higher law You ask me to enter, but then you make me crawl And I can't keep holding on to what you got When all you got is hurt.